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Meio Ambiente

Brasil deve registrar ao menos seis ondas de calor até o fim do ano

Análise do Cemaden aponta impactos do Super El Niño, que deve agravar seca no Norte e Nordeste e elevar risco de incêndios

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O Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor nos próximos meses devido à atuação do fenômeno Super El Niño, segundo levantamento divulgado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Atualmente, esses eventos climáticos extremos atingem todo o território nacional de forma simultânea, gerando preocupações sobre o agravamento da seca e o avanço dos incêndios florestais no país. O número de episódios previstos pode aumentar conforme a intensidade do El Niño se confirme.

De acordo com o Cemaden, uma onda de calor é caracterizada quando as temperaturas máximas e mínimas permanecem excepcionalmente acima da média por no mínimo três dias seguidos, sem dar trégua para a população. A pesquisadora Mabel Calim Costa, responsável pelo estudo, aponta que as ondas de calor no Brasil mudaram de comportamento nas últimas décadas. Nos anos 1980 e 1990, os episódios de calor extremo eram raros e restritos a regiões como o Nordeste, mas, a partir de 2010 e de forma acentuada depois de 2020, passaram a cobrir o país por completo de maneira simultânea.

O gatilho físico que gera as ondas de calor é a formação de bloqueios atmosféricos de alta pressão, que impedem a chegada de nuvens e de chuva, mantendo massas de ar seco e quente estagnadas. Como o planeta está com uma temperatura de base mais alta em relação ao passado, esses bloqueios provocam picos térmicos ainda mais severos do que os registrados há algumas décadas. Entre 2023 e 2024, o Brasil vivenciou o pico histórico dessas ocorrências, registrando nove ondas de calor entre agosto e dezembro, mais que o dobro da média geral brasileira, que é de quatro episódios. Naquele período, mais de 6 milhões de brasileiros enfrentaram ao menos 150 dias de calor extremo.

Para o mês de setembro, as projeções indicam temperaturas que podem ficar até 3°C acima da média histórica em quase todo o Brasil. Esse aquecimento severo acelera o processo de evapotranspiração, reduzindo drasticamente a umidade do solo e intensificando quadros de estiagem. Atualmente, 157 cidades brasileiras já enfrentam seca considerada severa, com destaque para a região Norte e o Nordeste. O estado do Tocantins lidera as estatísticas com 50 municípios nessa situação, seguido pela Bahia, com 18 cidades afetadas.

O avanço da seca e do calor também eleva consideravelmente o perigo de incêndios. Um mapeamento elaborado por institutos nacionais de meteorologia e monitoramento identificou 560 municípios em estado de alerta alto para fogo, abrangendo uma área superior a 3 milhões de quilômetros quadrados, o correspondente a mais de 35% do território nacional. A faixa geográfica mais vulnerável concentra-se entre a Amazônia e o Pantanal. Diante desse cenário, o Ministério do Meio Ambiente opera com um gabinete de crise estabelecido em maio para mitigar os efeitos do El Niño, mobilizando mais de 4,6 mil brigadistas federais para combater focos de incêndio pelo país.

Além dos impactos ambientais, a intensidade do Super El Niño trará consequências diretas para o bolso dos consumidores brasileiros. A estimativa é de que os preços dos alimentos registrem alta em até seis meses após os impactos climáticos. Em uma projeção de El Niño forte, os produtos in natura, que englobam carnes e hortaliças, podem sofrer um reajuste de 19,9%, enquanto o índice de alimentação no domicílio tem previsão de avanço de 6,32%.